Quando chegamos às catracas, ele tirou a mão de mim, fazendo com que eu me sentisse estranhamente abandonada. Olhei para ele tentando adivinhar o que pretendia, mas, apesar de estar olhando para mim, seu rosto não deixava transparecer nada.
"Demi!"
A visão de Cary apoiado casualmente em uma coluna de mármore no saguão mudou tudo. Seu jeans mostrava toda a extensão de suas pernas quilométricas, e o suéter folgado verde-claro enfatizava seus olhos. Ele atraiu sem dificuldades a atenção de todos no saguão.
Diminuí o passo ao chegar perto dele, e o deus do sexo passou por nós, atravessando a porta giratória e entrando rapidamente pela porta traseira do Bentley com chofer que eu tinha visto estacionado ali na noite anterior.
Cary assoviou quando o carro arrancou. “Ora, ora. Pelo jeito como estava olhando para ele, era o cara de quem você falou ontem, né?”
“Ah, sim. Era ele mesmo.”
“Vocês trabalham juntos?” De braços dados comigo, Cary me guiou até a rua pela porta lateral.
“Não.” Parei na calçada para calçar meu tênis de caminhada, apoiando-me em Cary enquanto os pedestres fluíam em torno de nós.
“Não sei quem é, mas ele perguntou se meu primeiro dia foi bom, então é melhor eu descobrir.”
“Olha...” Ele sorriu e segurou meu cotovelo enquanto eu pulava de maneira estabanada de um pé para o outro. “Não sei como alguém conseguiria trabalhar perto dele. Meu cérebro meio que derreteu por um instante.”
“Tenho certeza de que isso acontece com todo mundo”, concordei. “Vamos lá. Preciso beber.”
A manhã seguinte chegou com uma leve pontada na parte de trás da cabeça, consequência do fato de eu ter bebido vinho demais. Ainda assim, ao subir de elevador rumo ao vigésimo andar, não lamentei a ressaca tanto quanto poderia. Minhas escolhas eram o excesso de álcool ou uma sessão com meu vibrador, e eu estaria condenada se
houvesse tido um orgasmo movido a pilha pensando no Moreno Perigoso. Não que ele fosse descobrir que me deixava com tanto tesão a ponto de eu mal conseguir enxergar, ou mesmo se importar com isso — mas eu saberia, e não queria dar essa satisfação à imagem fantasiosa que tinha dele.
Joguei minhas coisas na última gaveta da mesa de trabalho e, quando vi que Mark ainda não havia chegado, fui buscar um café para ler meu novo blog favorito sobre o mundo da publicidade.
“Demi!”
Levei um susto quando ele apareceu atrás de mim, com seu sorriso branco contrastando com a pele escura. “Bom dia, Mark.”
“Bom dia mesmo. Acho que você me dá sorte. Vamos até o meu escritório. E traga o tablet. Trabalhou até muito tarde ontem?”
Fui atrás dele, compartilhando seu entusiasmo. “Ah, sim.”
“Era o que eu queria ouvir de você.” Ele se sentou em sua cadeira.
Eu me sentei na mesma cadeira do dia anterior e logo abri o programa de bloco de notas.
“Então”, Mark começou, “recebemos uma solicitação de proposta da vodca Kingsman, e eles mencionaram meu nome. É a primeira vez que isso acontece.”
“Meus parabéns!”
“Obrigado, mas vamos deixar essa parte pra quando eu conseguir a conta. Vamos ter que mostrar serviço, se passarmos desse estágio. Eles querem fazer uma reunião comigo amanhã no fim do dia.”
“Uau. Essas coisas caminham rápido assim mesmo?”
“Não. Geralmente eles esperam a gente resolver a questão da solicitação de proposta antes de pedir uma reunião, mas as Indústrias jonas acabaram de comprar a Kingsman, e a I.C. tem dezenas de subsidiárias. Se a gente conseguir a conta, vai ser um
ótimo negócio. Eles sabem disso, então estão nos testando. Essa reunião é o primeiro teste.”
“Normalmente haveria mais gente, né?”
“Sim, nós nos apresentaríamos como um grupo. Mas eles já sabem como as coisas funcionam. Sabem que a apresentação vai ser feita por um executivo sênior, mas que no fim vão trabalhar mesmo com um júnior como eu. Então, já me chamaram logo de uma vez
e agora querem me avaliar. É quase o mesmo que pedir um currículo, então não posso acusá-los de estarem sendo exigentes demais. Meticulosos, talvez. Quando se lida com as Indústrias Jonas, as coisas são assim mesmo.”
Ele passou a mão pelos cabelos ondulados, deixando entrever que estava se sentindo pressionado. “O que você acha da vodca Kingsman?”
“Hã... bom... Sendo bem sincera, nunca ouvi falar.” Mark se recostou na cadeira e soltou uma risada. “Ainda bem. Pensei que eu fosse o único. Certo, o lado bom é que a gente não vai precisar superar nenhuma resistência. Ser desconhecido pode ser bom.”
“O que eu posso fazer pra ajudar? Além de pesquisar sobre marcas de vodca e ficar aqui até mais tarde?”
Seus lábios se contraíram um pouco enquanto pensava. “Anote pra mim...”
Trabalhamos sem parar, invadindo a hora do almoço e até bem depois de o escritório esvaziar, analisando os dados iniciais levantados pelos estrategistas de mercado. Passava um pouco das sete quando o celular de Mark tocou. A interrupção abrupta do
silêncio me assustou.
Mark acionou o viva voz e continuou trabalhando. “Oi, amor.”
“Você deu alguma coisa pra pobre da menina comer?”, perguntou uma voz masculina do outro lado da linha.
Olhando pra mim através da divisória de vidro do escritório, Mark respondeu: “Ah... esqueci”. Desviei os olhos rapidamente, mordendo o lábio inferior para esconder o riso.
Ouvi uma bufada do outro lado da linha. “Só dois dias de emprego e você já está escravizando e matando a pobre moça de fome. Ela vai acabar pedindo demissão.”
“Droga. Você tem razão. Steve, querido...”
“Não me venha com essa de ‘Steve, querido’. Ela gosta de comida chinesa?”
Fiz sinal de positivo para Mark.
Ele sorriu. “Gosta, sim.”
“Muito bem. Chego aí em vinte minutos. Deixe o segurança avisado.”
Mais ou menos vinte minutos depois abri a porta da recepção para Steven Ellison. Era um sujeito enorme, vestido com jeans escuro, botas de operário surradas e uma camisa de botão muito bem alinhada. Com seus cabelos ruivos e olhos azuis risonhos, era tão bonito quanto seu companheiro, mas de uma beleza bem diferente. Nós nos sentamos em torno da mesa de Mark, servimos o frango kung pao e a carne com brócolis em pratos de papel, acrescentamos arroz branco e mandamos ver com os palitinhos.Descobri que Steven era um empreiteiro e que namorava Mark desde a época da faculdade. Ao ver os dois interagindo, senti um misto de admiração e inveja. O relacionamento dos dois dava tão certo que era uma alegria passar um tempo com eles.
“Santo Deus, minha filha”, Steven disse depois de soltar um assovio quando me servi pela terceira vez. “Isso é que é disposição. Para onde vai tudo isso?”
Encolhi os ombros. “Acho que fica tudo lá na academia. Isso justifica?”
“Não ligue pra ele”, interrompeu Mark, sorrindo. “Steven está com inveja. Ele precisa se cuidar para não virar uma matrona.” “Minha nossa”, Steven fuzilou seu companheiro com um olhar de censura. “Eu poderia levar você pra almoçar com o pessoal da obra. Dava pra ganhar um bom dinheiro apostando quanto você consegue comer.”
Eu sorri. “Ia ser divertido.”
“Rá. Sabia que você era do tipo saidinha. Seu sorriso diz tudo.”
Olhando somente para minha comida, eu me recusei a deixar minha mente divagar pelas lembranças de como tinha sido muito mais do que saidinha na minha fase mais rebelde e autodestrutiva.
Foi Mark quem me salvou. “Pare de assediar minha assistente. E o que você sabe sobre mulheres saidinhas, aliás?”
“Conheço algumas que curtem sair com gays. Elas gostam da forma como a gente encara a coisa.” Ele abriu um sorriso. “E sei algumas outras coisinhas também... Ei, não precisam ficar tão chocados, vocês dois. Eu só queria saber se o sexo hétero era tudo isso
que dizem.”
Obviamente, isso era novidade para Mark, mas, pela maneira como ele sorriu, deu para ver que tinha confiança suficiente em seu relacionamento para achar aquela conversa toda engraçada. “Ah, é?”
“E o que você achou?”, arrisquei-me a perguntar. Steven encolheu os ombros. “Não diria que é algo superestimado, porque não sou a
pessoa certa pra julgar e tive uma experiência bem limitada, mas consigo viver sem.”
Achei muito atencioso da parte de Steven relatar sua experiência a partir de uma perspectiva que fazia sentido para Mark. Eles costumavam conversar também sobre suas carreiras e sabiam ouvir um ao outro a esse respeito, apesar de atuarem em campos muito
diferentes.
“Considerando o tipo de vida que você leva hoje”, Mark disse a ele, pegando um pedaço de brócolis com seus palitinhos, “eu diria que é sorte sua que seja assim.”
Quando terminamos de comer, já eram oito horas, e a equipe de limpeza já havia chegado. Mark fez questão de chamar um táxi para mim.
“Quer que eu chegue mais cedo amanhã?”, perguntei.
Steven bateu no ombro de Mark com o seu. “Você deve ter feito alguma coisa de bom em uma vida passada para ganhar uma assistente como essa.”
“Acho que aturar você nesta vida foi o suficiente”, rebateu Mark, irônico.
“Ei”, protestou Steve, “eu sou educadíssimo. Abaixo a tampa do vaso direitinho.”
Mark me lançou um olhar fingindo irritação, mas repleto de carinho por seu companheiro. “E o que isso tem a ver?”
Mark e eu trabalhamos duro a quinta-feira inteira, a fim de nos preparar para a reunião das quatro da tarde com o pessoal da Kingsman. Tivemos um almoço muito produtivo com dois funcionários da área de criação, que iam participar da campanha caso conseguíssemos a conta; mais tarde analisamos os dados sobre o posicionamento da empresa na internet e sua penetração nas mídias sociais.
Fiquei meio tensa quando vi que eram três horas, porque sabia que o trânsito poderia estar complicado, mas Mark continuou trabalhando normalmente mesmo depois de eu dizer que horas eram. Faltavam vinte para as quatro quando ele saiu da sua sala com um sorriso no rosto, ainda terminando de vestir o paletó.
“Vamos lá, Demi.”
Lancei um olhar de surpresa para ele da minha mesa. “Sério?”
“Ei, você deu um duro danado me ajudando a preparar tudo. Não quer ver como as coisas funcionam?”
“Claro que sim.” Fiquei de pé em um pulo. Sabendo que minha aparência contaria pontos para meu chefe, alisei a saia preta com a mão e ajeitei as mangas longas da minha blusa de seda. Por um acaso do destino, a blusa era vermelha, combinando perfeitamente
com a gravata de Mark. “Obrigada.”
Entramos no elevador e levei um pequeno susto quando senti que ele subia ao invés de descer. Ao chegarmos ao último andar, vi que o hall de entrada era consideravelmente maior e mais luxuoso que o do vigésimo. Vasos suspensos de samambaias e lírios preenchiam o ar com uma fragrância suave, e em uma porta de vidro opaco lia-se
INDÚSTRIAS JONAS em letras grossas e masculinas. A porta foi aberta para nós, e pediram que aguardássemos um momento. Ambos
recusamos a água e o cafezinho e, menos de cinco minutos depois, fomos conduzidos até
uma sala de reunião com a porta fechada.
Mark olhou para mim com um brilho nos olhos quando a recepcionista pôs a mão
na maçaneta da porta.
“Está pronta?”
Eu sorri. “Estou.”
A porta se abriu, e eu fui a primeira a ser conduzida para dentro. Fiz questão de abrir um enorme sorriso ao entrar... um sorriso que se congelou no meu rosto ao ver o homem que estava diante de mim logo na entrada da sala.
Minha parada repentina bloqueou a passagem, e Mark acabou trombando nas minhas costas, arremessando-me para a frente aos tropeções.. O Moreno Perigoso me apanhou pela cintura, tirando meus pés do chão e me obrigando a me amparar em seu peito. O ar foi arrancado de dentro de mim com o impacto, assim como o restante de bom senso que eu ainda possuía. Mesmo com as diversas camadas de tecido que havia entre nós, pude sentir que seus bíceps endureceram como pedra sob o contato das minhas mãos, e que sua barriga contra a minha era uma massa compacta de músculos. Quando ele respirou perto de mim, meus mamilos endureceram, estimulados pela expansão do peito dele.
Ah, não. Eu só poderia estar sob uma maldição. Uma rápida sequência de imagens passou pela minha mente, mostrando as mil e uma maneiras como eu poderia tropeçar, cair, escorregar ou me esborrachar na frente daquele deus do sexo ao longo dos próximos dias, semanas ou até meses.
“Olá de novo”, ele murmurou, e a vibração de sua voz fez meu corpo todo se enrijecer. “É sempre um prazer topar com você, Demetria.”
Fiquei vermelha de vergonha e de desejo, incapaz de tomar a atitude de me afastar, apesar da presença de outras duas pessoas na sala. O fato de a atenção dele estar toda voltada para mim também não ajudava — seu corpo firme irradiava uma impressão irresistível de um desejo poderoso.
“Senhor Jonas”, disse Mark atrás de mim. “Desculpe a entrada meio abrupta.”
“Não precisa se desculpar. Foi uma entrada memorável.”
Cambaleei sobre os saltos quando Jonas me pôs de volta no chão, com os joelhos trêmulos em virtude do intenso contato corporal. Ele estava mais uma vez de preto, com uma camisa e uma gravata em um tom claro de cinza. Como sempre, estava lindo de morrer.Como deve ser ter essa aparência? Com certeza, em todo lugar por onde passava ele causava uma comoção.
Chegando até mim, Mark me amparou e me ajudou a retomar o equilíbrio com toda a gentileza.
O olhar de Jonas se concentrou na mão de Mark no meu cotovelo até que ele me soltasse.
“Muito bem. Vamos lá, então.” Mark retomou sua postura. “Esta é minha assistente, Demetria Lovato.”
“Nós já nos conhecemos.” Jonas puxou uma cadeira ali perto. “Demetria.”
Olhei para Mark em busca de orientação, ainda tentando me recuperar dos momentos em que havia ficado a milímetros daquele supercondutor sexual escondido sob um terno Fioravanti.
Jonas se aproximou em silêncio e ordenou: “Sente-se, Demetria”.
Mark acenou com a cabeça, mas eu já estava me soltando sobre a cadeira ao comando de Jonas. Meu corpo obedeceu instintivamente antes que minha mente compreendesse a situação e fizesse alguma objeção.
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